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O potencial descarbonizante da cultura de trigo


O dióxido de carbono (CO2) é indispensável para as plantas realizarem a fotossíntese, processo que promove o crescimento da biomassa e a formação de frutos ou grãos. Na fotossíntese, a planta absorve carbono e libera oxigênio para a atmosfera. Contudo, durante o desenvolvimento, as plantas também liberam carbono que, aliado à decomposição dos resíduos agrícolas, é responsável por uma quantidade significativa do CO2 emitido para a atmosfera.


Na atmosfera, o CO2 faz parte, junto com o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), dos gases causadores do efeito estufa (GEE). No Brasil, a agropecuária é uma das principais geradoras de GEE, com cerca de 27% das emissões do país. É nesse sentido que a pesquisa, desenvolvida pela Embrapa Trigo (RS) em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), foi realizada e fez importantes descobertas. O estudo, além de ter demonstrado que o trigo sequestra mais carbono do que emite, também apresentou o pousio, prática agrícola que aumenta a emissão de carbono para a atmosfera, como o vilão do sistema de produção.


A pesquisa


O experimento, que teve por objetivo avaliar as diferenças entre a emissão e remoção de carbono (balanço) no sistema de produção de grãos, foi realizado em uma lavoura no município de Carazinho, região norte do Rio Grande do Sul. A lavoura utiliza o sistema de plantio direto e foi semeada com trigo no inverno e soja no verão. Nela, foi instalado uma torre de fluxo, equipamento capaz de capturar e avaliar a emissão de GEE das culturas ao longo do ano.


O balanço de carbono foi registrado em cada etapa do sistema de produção, abrangendo o cultivo do trigo, o pousio de primavera (entre a colheita do trigo e a semeadura da soja), o cultivo da soja e o pousio de outono (após a colheita da soja até a entrada da cultura de inverno). Para avaliar o balanço de CO2, a pesquisa considerou a retenção no sistema de produção e a emissão para a atmosfera, descontado o carbono que foi exportado nos grãos colhidos.


Na avaliação dos resultados, o trigo demonstrou ser uma cultura com potencial “descarbonizante”, ou seja, removeu mais carbono do que emitiu, ajudando na redução de gases de efeito estufa da atmosfera, como o CO2. O balanço de carbono em cada etapa da produção, após descontada a quantidade extraída pelos grãos na colheita, mostrou que o trigo incorporou no sistema 5,31 gramas (g) de CO2 por metro quadrado ao dia; a soja, 0,02 g; e os dois períodos de pousio emitiram 6,29 g.


Imagem: Balanço de carbono no sistema trigo/soja e no regime de pousio. Fonte: adaptado de Roberti et al. (2022), com base em Veeck et al. (2022). Ilustrações: Victoruler, Smachicons.


Dessa forma, o trigo apresentou o que os pesquisadores chamam de “balanço negativo” de carbono. A cultura absorveu um total de 7.540 kg de CO2 por hectare durante o ciclo, neutralizando as emissões dos períodos de pousio e garantindo a oferta líquida de 1.850 kg CO2 por hectare, demonstrando a possibilidade do trigo atuar como cultura “descarbonizante” na produção de grãos do Sul do Brasil.


Ainda, os resultados da pesquisa apontaram os impactos negativos da prática de pousio em relação à emissão de CO2. Em apenas 30 dias, a prática emitiu 27% de todo o carbono que o trigo e a soja acumularam em 11 meses de cultivo. A cultura de inverno ajuda a equilibrar o sistema, já que em comparação com a soja, que absorve praticamente a mesma quantidade de CO2 que emitiu, o trigo remove da atmosfera mais do que foi emitido. Os pesquisadores alertam que já existem alternativas visando a redução ou eliminação do pousio entre as culturas no outono, e acreditam que outras culturas e até mesmo plantas de cobertura possam apresentar um balanço de carbono ainda mais negativo.


Contexto do sistema na Região Sul


Depois do Centro-Oeste, a Região Sul é o segundo grande polo de produção de grãos no Brasil. Os três estados do Sul (PR, SC e RS) respondem por mais de 90% da produção de trigo e por 30% da produção nacional de soja. Pela valorização da soja no mercado, os cultivos de inverno nem sempre compõem o cenário agrícola, restando muitas áreas em pousio nos meses de outono e inverno.


Segundo dados da CONAB, atualmente são contabilizados mais de 15,2 milhões de hectares com culturas de verão e apenas 5,8 milhões de hectares com cultivos de inverno. Outros 3 milhões de hectares constituem-se em sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP), que contam com forragens cobrindo o solo no outono e inverno. Com base nesses dados, é possível estimar uma área de pousio superior a 6 milhões de hectares nessa região durante o inverno.


Imagem: Culturas anuais (RS, SC e PR) e área cultivada. Fonte: adaptado de CONAB, 2022.


A falta de cobertura vegetal em ambientes subtropicais, como no Sul do Brasil, implica em impactos diretos no solo, como a degradação através da erosão, compactação, redução da atividade microbiana e da fertilidade, além da maior incidência de plantas daninhas. Agora, com os resultados da pesquisa, foi possível também observar os impactos do pousio na emissão de CO2 para a atmosfera.


Diante deste cenário, a alternativa é investir em tecnologias capazes de aprimorar o sequestro de carbono por meio de florestas plantadas e, principalmente, na atividade agrícola, onde sistemas intensivos de rotação de culturas podem ser implementados com esse objetivo.


Fontes:

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